Por Carlos Hermínio*
Continuando o artigo anterior, aqui versaremos sobre os benefícios da implantação do Projeto do Canal de Xingó, usando como paradigma o projeto da transposição das águas do rio São Francisco, entendendo que nosso Estado não poderia nunca deixar de ser compensado com uma ação do governo federal.
O Canal de Xingó é um projeto essencial para garantir a segurança hídrica e o desenvolvimento econômico do semiárido sergipano e baiano. Originalmente, no nosso livro, Luzes do Farol do Cordouan para o Rio São Francisco, relatamos que a vazão projetada era de 36 m³/s, porém, recentemente foi reduzida para 31 m³/s. No entanto, os benefícios continuam sendo imensos, especialmente para Sergipe, onde o projeto é a única solução concreta para eliminar o déficit hídrico do estado até 2050, além de impulsionar a agricultura, a pecuária e a agroindústria.
O custo estimado do Canal do Xingó de R$ 4,5 bilhões, é um valor significativamente menor do que os mais de R$ 15 bilhões gastos nos canais da Transposição do Rio São Francisco.
📌 Os números comprovam a viabilidade do projeto
Com 290 km de extensão, o Canal do Xingó irá garantir segurança hídrica diretamente a 2,8 milhões de pessoas e transformará a economia de toda região semiárida de Sergipe e parte da Bahia. Veja os impactos mais relevantes com base nos dados técnicos do projeto:
✅20.000 hectares irrigados novos e existentes, impulsionando a produção agrícola e pecuária, com a redução dos atuais custos de captação de água e das tarifas d’água;
✅7.000 unidades produtivas da agricultura familiar e 39 assentamentos da reforma agrária com acesso á água para consumo e produção;
✅Abastecimento para 2,7 milhões de habitantes em Sergipe até 2050;
✅90.000 empregos diretos e indiretos gerados;
✅R$ 500 milhões em renda líquida anual com a produção agropecuária e agroindustrial;
✅108% de crescimento no PIB dos municípios beneficiados
📌 Benefícios do Canal de Xingó por Estado
📍 Bahia: segurança hídrica e expansão da irrigação
• 0,61 m³/s destinados à Empresa Baiana de Águas e Saneamento (Embasa), garantindo água para 180 mil habitantes até 2050.
• Projeto de Irrigação de Santa Brígida: 9.637 ha irrigados com vazão disponível de 8,50 m³/s de água;
• Desenvolvimento de agroindústrias: indústrias de laticínios, carnes, frutas e mel.
📍 Sergipe: fim do déficit hídrico, crescimento econômico baseada na bacia leiteira do Alto Sertão
• 8,41 m³/s para abastecimento público, beneficiando 2,7 milhões de habitantes até 2050.
• 4 grandes projetos públicos de irrigação somam 6.091 ha irrigados: Califórnia e Jacaré-Curituba, em operação; Manoel Dionísio e Nossa Senhora da Glória a serem implantados;
• Povoados Rurais ao longo do Canal, localizados em até 5 km de ambas as margens, através de sistemas simplificados isolados, para uma população projetada de 17.700 habitantes em 2050.
• 39 Projetos de assentamentos rurais do Incra e do Estado de Sergipe, terão acesso à água, totalizando 46.755 hectares ocupados por 1.904 famílias de agricultores familiares. Os assentamentos contarão com sistemas próprios para fornecimento de água a partir do Canal, com irrigação em 1.877 ha de capineiras, além da dessedentação animal e demais usos;
• Produção agropecuária: Implantação de Pulmões Verdes para garantir alimentação do gado na seca, irrigando 4.117 hectares
• Atendimento de agroindústrias a serem implantadas, entre as quais as indústrias de laticínios, de carnes, de beneficiamento de frutas e de mel e derivados. Produção esperada de: 52 milhões de litros de leite/ano, 2.500 toneladas de carne/ano, 3.000 toneladas de doces e polpas de frutas/ano e 1.000 toneladas de mel/ano
💰 Tarifa de água: muito mais barata para o irrigante e o assentado
A Transposição do Rio São Francisco terá tarifas mais elevadas, devido ao custo de bombeamento e manutenção, se comparada ao futuro Projeto do Canal de Xingó; este, por operar 100% por gravidade, terá tarifas muito mais acessíveis, o que na prática significa que pequenos produtores rurais e agricultores familiares dos assentamentos rurais terão acesso à água a um custo muito menor; o custo operacional reduzido permitirá uma distribuição mais eficiente da água para irrigação e agroindústria, e permitirá ter mesmo a irrigação de culturas de subsistência, até mesmo o quiabo, cultivo predominante no Projeto Califórnia.
Ora, a nossa experiencia com a irrigação na Codevasf, no Baixo São Francisco, tem mostrado que, se vier a incidir no custo da tarifa d’água o valor da energia de bombeamento, o irrigante não tem como suportar este custo; o que tem implicado que a Codevasf vem arcando com tais despesas, situação idêntica, ocorre também nos perímetros irrigados do Governo do Estado.
Portanto, esse cenário, foi o que pesou quando no estudo de viabilidade do Canal de Xingó, pois, uma das alternativas, de se captar a agua diretamente na tomada d’água da ombreira direita da barragem de Xingó, (veja fotos a seguir) se defrontou, com a incidência do custo do bombeamento para vencer o recalque para as terras irrigáveis, já que o Projeto Califórnia apresentava altos índices de inadimplência das tarifas d’águas; por isso, que surgiu a alternativa da captação das aguas por “gravidade” no reservatório de Paulo Afonso IV e, à época, em 2009, o saudoso ex-Governador Marcelo Déda fez o acordo com o Governo da Bahia, Jaques Wagner, para que isso fosse possível, tudo com o aval do Presidente Lula!
Face a grande extensão do Canal de Xingó, o Projeto foi dividido em 4 fases, sendo a 1ª Fase, indo da captação, em Paulo Afonso IV, até o km 114,5, tendo sido realizada um anteprojeto em 2016, e posteriormente, concluído o projeto básico, em 2022. Em 2023, foi iniciado a elaboração do Projeto Executivo do Lote 1 da 1ª Fase, trecho da captação até o km 50,6, porém devido a questionamentos da sua viabilidade, pelo TCU e ANA, o mesmo encontra-se paralisado pela Codevasf, aguardando orientações do MIDR quanto à sua continuidade.
Ora, o vizinho Estado de Alagoas já vem sendo contemplado com o Canal do Sertão Alagoano, enquanto que o governo da Bahia está demonstrando seu interesse pelo Canal do Sertão Baiano, no Norte do estado, atendendo áreas dos municípios das bacias hidrográficas do Salitre, Tourão/Poções, Itapicuru, Jacuípe e Vaza-Barris, com distribuição por 297 quilômetros de canais. Quer dizer, as terras baianas de Paulo Afonso e Santa Brígida, onde percorrem os 43 km iniciais do canal de Xingó, não estão atirando o interesse das lideranças baianas e por conseguinte vem inviabilizando por completo o atendimento aos interesses de nós sergipanos, que precisamos agir e buscar unir esforços de todos aqueles que detém poder e capacidade, de somados, entender que os inúmeros benefícios apresentados neste artigo, buscam reverter um cenário histórico de aridez, sofrimento e de pobreza do semiárido sergipano!
*Conselheiro representante dos empregados no Consad/Codevasf